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Há uma pergunta que quase todo visitante faz ao descer no centrinho de Penedo pela primeira vez: o que a Finlândia, um país de inverno longo a quase doze mil quilômetros daqui, foi fazer no meio da Serra da Mantiqueira? A resposta não está num folheto de turismo. Está na história de um homem que sonhou com um paraíso vegetariano nos trópicos e arrastou centenas de compatriotas para construí-lo numa antiga fazenda de café. O sonho, como quase todo sonho grande, não saiu como o planejado. Mas o que sobrou dele é justamente a cidade que você veio conhecer.
Este é o tipo de história que dá outro sabor à viagem. Depois de saber o que aconteceu aqui, a sauna do hotel, o chocolate da loja da esquina e as casinhas coloridas da Pequena Finlândia deixam de ser enfeite e viram a ponta visível de uma saga real, com nomes, datas e gente de carne e osso. Vale a pena conhecer antes de andar pelas ruas.

Tudo começa com Toivo Bernhard Uuskallio, nascido na Finlândia em 1891. Agrônomo e idealista, ele havia se curado de uma doença pulmonar grave com uma dieta sem carne, e dessa experiência tirou uma convicção que carregaria pela vida inteira: a de que viver em harmonia com a natureza, sem tabaco, sem excessos e à base de vegetais, era o caminho para um corpo e um espírito saudáveis. O problema era o clima. Num país de invernos que podiam durar a maior parte do ano, plantar verduras o ano todo era quase impossível.
Uuskallio não estava sozinho nessa inquietação. No começo do século XX, uma espécie de febre tropical tomou conta de parte da juventude finlandesa, gente que sonhava em fundar comunidades ideais em terras quentes, longe das guerras e do consumo desenfreado da Europa. Houve experiências parecidas no Canadá e no Caribe. Foi nesse espírito que Uuskallio decidiu procurar, do outro lado do mundo, um lugar onde fosse possível plantar o ano inteiro e viver segundo aquilo em que acreditava.
Em agosto de 1927, aos 36 anos, Uuskallio desembarcou no Rio de Janeiro com a esposa, Liisa, e uns poucos companheiros. Antes de fundar qualquer coisa, foi prudente: passou cerca de um ano trabalhando numa fazenda da região de Barra Mansa, estudando o solo, o clima e as técnicas de plantio do Brasil, tão diferentes de tudo o que conhecia. Só depois de se sentir preparado é que voltou à Finlândia para buscar gente disposta a embarcar no projeto.
E aí está um detalhe que diz muito sobre o tipo de comunidade que ele imaginava. Quem quisesse entrar precisava responder a um questionário com cerca de setenta perguntas e aceitar regras firmes: nada de tabaco, nada de disputas políticas ou religiosas e adesão ao vegetarianismo. Não era um convite para aventureiros, era um chamado para conviver segundo um ideal. Com a ajuda de um pastor amigo, que divulgava a causa em jornais e palestras, Uuskallio reuniu seus seguidores e voltou ao Brasil.
A escritura da Fazenda Penedo, uma antiga propriedade de café no Vale do Paraíba, foi assinada em janeiro de 1929. Por isso aquele é considerado o ano de fundação da colônia. Na época, a região era apenas um distrito de Resende, sem nome próprio e sem estrada decente. O lugar que hoje se chama Penedo e pertence ao município de Itatiaia nasceu, para o mundo, naquele papel de compra e venda assinado por um grupo de finlandeses que mal falava português.

Nos primeiros anos, cerca de cem pessoas viviam juntas na antiga sede da fazenda, num regime de igualdade e trabalho compartilhado. Uns cuidavam das plantações, outros abriam estradas e levantavam casas, e havia até a preocupação, avançada para a época, de preservar as matas e os rios. A ideia era que, com o tempo, cada família ganhasse seu próprio lote para administrar, sem nunca abandonar os princípios de vida em comum.
A terra, no entanto, não colaborou como se esperava. As primeiras tentativas de cultivar tomate, morango e outras hortaliças esbarraram na falta de mercado e nas pragas. A solução apareceu quando os finlandeses passaram a produzir mudas de laranjeira, num momento em que o Brasil começava a exportar laranja para a Europa. Por um tempo, a estação de trem mais próxima vivia cheia de caixas de mudas seguindo para os laranjais da região, e a colônia respirou.
Quem chegava a Penedo naqueles anos via uma cena improvável no interior fluminense: gente de cabelos claros falando uma língua incompreensível, banhos de vapor numa cabana de madeira aquecida, bailes animados com polcas e mazurcas ao som de uma vitrola de corda. A primeira sauna do Brasil foi construída ali, em 1929, e o hábito se espalharia pelo país a partir dessa pequena colônia perdida na serra. Hoje, quando você entra na sauna finlandesa de um hotel em Penedo, está repetindo um gesto que começou exatamente aqui.
É preciso contar essa parte com honestidade, porque é ela que explica a Penedo de hoje. A utopia não vingou. Muitos colonos, cansados do trabalho duro e da terra ingrata, voltaram para a Finlândia ou foram tentar a vida em outras cidades. E veio o golpe final: a Segunda Guerra Mundial. Com a Finlândia mergulhada no conflito e a Europa fechada para o comércio, a venda de laranja desabou e a ajuda financeira que vinha de fora secou.
Endividado, Uuskallio precisou vender metade da fazenda, por volta de 1942, a uma empresa de capital estrangeiro que se instalou ali para cultivar plantas medicinais, então em falta na Europa em guerra. Foi o fim oficial da utopia. Os finlandeses que ficaram deixaram de ser uma comunidade de iguais e viraram trabalhadores assalariados. O vegetarianismo, antes regra inegociável, foi sendo esquecido. O paraíso vegetariano havia acabado, e cada família passou a cuidar do próprio destino.
Uuskallio morreu em 1969, em Penedo, vendo a cidade tomar um rumo que ele jamais imaginara. O sonho dele falhou nos termos em que foi sonhado. Mas, do fracasso, brotou outra coisa, e é aí que a história fica bonita de novo.

Ainda durante a guerra, a chegada de novos moradores e de refugiados europeus trouxe um movimento inesperado de gente que precisava de teto. As famílias finlandesas começaram a hospedar visitantes nas próprias casas, cobrando pela estadia e pela comida. Sem grande plano, quase por necessidade, nasciam ali as primeiras pensões da cidade. Era o embrião do turismo, a atividade que viria a sustentar Penedo até hoje.
O salto veio com a estrada. Quando a Rodovia Presidente Dutra foi inaugurada, no começo dos anos 1950, ligando o Rio a São Paulo e passando pertinho dali, ficou fácil chegar de carro num fim de semana. As antigas pensões cresceram, viraram hotéis e pousadas, e Penedo se firmou como destino de serra para quem queria fugir do calor e do barulho das grandes cidades. O que tinha começado como uma comunidade agrícola fechada se reinventou como cidade de hospitalidade, e essa vocação para receber bem ficou no sangue do lugar.
Nesse mesmo período, os finlandeses remanescentes fundaram um clube para manter viva a própria cultura. O primeiro baile aconteceu em 1943, num galpão simples, e o Clube Finlândia seria oficializado anos depois, em 1952. Até hoje ele guarda as tradições, a música e a memória da colônia, e abriga o museu que conta tudo isso. A herança que parecia fadada a sumir com o fim da utopia encontrou um jeito de continuar.

Se a colônia tem hoje quem conte a sua história com nome e rosto, isso se deve em boa parte a uma mulher. Eva Hildén chegou ao Brasil em janeiro de 1929, com apenas seis anos, no mesmo movimento que fundou a colônia. O pai já estava em Penedo havia dois anos, preparando o terreno para a família. Ela contava que, antes de embarcar, assistiu ao leilão dos móveis de casa e chorou quando viram levarem a luminária de flores azuis que ela amava, perguntando à mãe como iriam enxergar de noite. São lembranças assim, miúdas e humanas, que ela guardou a vida inteira.
Eva cresceu entre dois mundos, estudando na Finlândia e passando os verões em Penedo, até a guerra fixar de vez sua vida no Brasil. Perdeu um irmão nos combates, naturalizou-se brasileira e gostava de dizer que era mais brasileira que muitos brasileiros, porque havia escolhido este país, não apenas nascido nele. Ao mesmo tempo, nunca deixou de amar a Finlândia. Era uma mulher de duas raízes, e foi exatamente essa condição que a transformou na guardiã natural dessa memória.
Aos poucos, na pequena loja de artesanato que mantinha, ela começou a mostrar aos visitantes curiosos as fotografias e os objetos dos imigrantes. O interesse das pessoas foi tão grande que aquilo virou, quase sozinho, um museu. Em 1989, Eva reuniu seus diários de uma vida inteira no livro A Saga de Penedo, o relato mais íntimo que existe sobre essa imigração. E, no dia em que completou setenta anos, doou todo o acervo ao Clube Finlândia, para que a memória tivesse uma casa permanente. O museu leva o nome dela.
Hoje, o Museu Finlandês Eva Hildén, a poucos minutos do centro, reúne mais de mil objetos: malas de madeira, bordados, utensílios, documentos e fotografias da colônia. Não é um museu grandioso, e essa é justamente a sua graça. É genuíno, e ajuda a entender por que Penedo é o que é. Vale reservar uma manhã da viagem para visitá-lo, de preferência conferindo antes os dias e horários de funcionamento, que costumam variar ao longo do ano.
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 1927 | Toivo Uuskallio chega ao Rio e estuda o solo brasileiro por cerca de um ano |
| 1929 | Compra da Fazenda Penedo e fundação da colônia; primeira sauna do Brasil |
| Anos 1930 | Auge das mudas de laranjeira e início da hospedagem nas casas dos colonos |
| 1942 | Fim da utopia: parte da fazenda é vendida e o vegetarianismo se dissolve |
| 1943 a 1952 | Nasce e se oficializa o Clube Finlândia, guardião da cultura |
| Anos 1950 | A Rodovia Dutra abre o turismo de fim de semana e Penedo vira destino de serra |
| 1989 a 1993 | Eva Hildén publica A Saga de Penedo e doa o museu ao Clube Finlândia |
Quase um século depois, a utopia vegetariana virou outra coisa, e essa outra coisa está em cada esquina da cidade. Está no chocolate artesanal de inspiração nórdica que perfuma as lojas, na arquitetura de telhados pontudos e cores fortes da Pequena Finlândia, no clima de Natal que toma conta de Penedo nos meses frios, na sauna que aquece os hotéis e até na vocação para receber bem, herdada de quando as casas dos colonos viraram as primeiras pensões. Se a sua viagem incluir uma tarde de chocolate, vale conhecer também o nosso guia dos chocolates de Penedo e, para as noites de serra, o guia de onde comer fondue, outro prato de raiz europeia que encontrou casa aqui.
Conhecer essa origem muda o jeito de andar pela cidade. O que poderia passar por enfeite temático ganha lastro: existe uma história real por trás, feita de coragem, de fracasso e de reinvenção. É essa camada a mais que transforma um passeio bonito numa viagem com sentido. Se quiser montar o roteiro com calma, o nosso roteiro de fim de semana em Penedo ajuda a encaixar o Museu, a Pequena Finlândia e o centrinho sem correria.
O City Park Hotel fica no coração de Penedo, a poucos minutos a pé do Museu Finlandês Eva Hildén e da Pequena Finlândia, bem no centro de onde toda essa história aconteceu. É uma boa base para conhecer a herança finlandesa da cidade sem depender de carro, com piscinas e toboágua para o verão e o conforto certo para o inverno de serra. Para garantir a sua data, sobretudo nos picos, fale com a gente pelo WhatsApp ou reserve direto pelo site.
O City Park Hotel fica no centro de Penedo, a poucos minutos a pé das principais atrações desta página. Se quiser usar o hotel como base para explorar tudo isso, entre em contato pelo WhatsApp ou reserve pelo site.

Do centrinho à Pequena Finlândia, do fondue às cachoeiras. Um roteiro real, feito por quem mora aqui.

Trenzinho, Pequena Finlândia, toboágua e cachoeiras fáceis. Tudo o que funciona de verdade com a família.

Fondue com queijos sul-mineiros, restaurantes com lareira e o centrinho iluminado no frio da serra.